ANTIGAS CONVICÇÕES, NOVAS CERTEZAS - I

 

 

Um amigo de verdade deve dizer o que você deseja ou o que você precisa ouvir? Para mim, amigo verdadeiro é aquele que, quando necessário, diz verdades, sejam elas dolorosas ou não. Aliás, verdades geralmente são dolorosas. Muito diferente do amigo de botequim, sempre disposto a uma palavra de apoio tão confiável e duradoura quanto a fumaça do cigarro que ele lança no seu rosto.

 

Pois bem, resolvi ser amigo de verdade de alguns amigos de blog. Depois, cada um que leia este post conforme seu interesse e sua relação de momento com o cigarro. E quem quiser que tire lições — se é que alguém pode dar lições neste ramo da estupidez humana chamado tabagismo. Quem é o velho Artemus, com seu pneumotórax antes dos 30, para dizer a alguém o que fazer...

 

Primeiro, ele é um chato. Daqueles que não consegue calar quando vê um amigo fazendo besteira. Segundo, ele é marido de Cristal, uma das mulheres mais sábias e serenas que já conheceu. Uma mulher muito especial, de personalidade forte e constituição delicada. Se fosse oriental, seria uma chinesa de Steinbeck: pequena, quieta e decidida.

 

Mas chega de falar daquela Cristal com quem convivo há mais de 20 anos. Essa sabe de meu amor e de meu respeito. Quero falar de outra Cristal, que conheci há coisa de um mês. Uma mulher fragilíssima, que tem se apoiado nos tranquilizantes para enfrentar um monstro que ela desconhecia até o momento de apagar o último cigarro no dia 10 de janeiro: a crise de abstinência.

 

Cristal tem sofrido muito. Tem se desconhecido em sua relação comigo, com o mundo e, principalmente, consigo mesma. De minha parte, tenho procurado estar presente e ajudar como posso: calando, ouvindo, tentando entender.

 

Segue...

ANTIGAS CONVICÇÕES, NOVAS CERTEZAS - II

 

Continuação...

 

Confesso que descobri belezas ocultas nessa relação trêmula dos últimos dias. No esforço de tentar ajudá-la, descobri, por exemplo, uma forma de retribuir, mesmo que minimamente, todo o carinho que ela me dedicou ao longo de nossa vida em comum. Sim,  as mulheres cuidam de nós e nós nem percebemos. Só nos damos conta quando ficamos sozinhos, emocionalmente solitários, e somos chamados a cuidar delas. Estou contente porque fui chamado e pude ajudá-la. E por ter me tornado, com isso, um pouco menos menino, um pouco mais à altura de minha mulher.

 

Foram 30 dias inesquecíveis. Tarjas pretas, receitas minuciosas, telefonemas inesperados para o médico. Esquecimentos, atitudes inesperadas, explosões de choro, crises de insegurança, alheamento, indiferença, insônia, apatia, tristeza, melancolia, prostaçao, cansaço... Como disse a doutora: “Trinta anos de vício não são trinta dias...”

 

Parece que estamos ultrapassando a fase mais difícil. Ainda restam de duas a quatro semanas para o fim do processo de desintoxicação, mas já é possível vislumbrar um pouco de serenidade no horizonte. Cristal está, neste momento, a 3 mil quilômetros de distância de mim, a trabalho. Falando com pessoas desconhecidas, com um microfone na mão. Muito bom para quem não conseguia, há alguns dias, manter a concentração para atividades básicas. Por atividade básica, em Cristal, entenda-se ler 500 páginas por semana. Imagine o que se torna um leitor privado de seu ópio maior, o livro.

 

Chega. O tempo está mudando. As coisas vão voltar ao seu lugar. Eu só não entendo alguns pequenos detalhes.

 

Se parar de fumar é tão difícil para as mulheres (e é, eu pude ver isso de perto), tão doloroso, por que elas se permitem os mesmos descuidos tolos que nós homens? Por que se deixam levar por três deliciosas tragadas? Duvido que  “essa” minha amiga fique só nisso. Sim, duvido. Já vi esse filme muitas vezes. Vi com Leumas, da última vez.

 

E sabem por que duvido? Porque a reação dela foi a mesma, exatamente a mesma dos outros: de nojo, de asco, de repulsa, de alívio por achar o cigarro detestável. O velho filme. Tão detestável que nunca, jamais, definitivamente, ela voltará a fumar. E por estar tão certa de sua independência, poderá até brincar com um deles entre os dedos de vez em quando. Na próxima mesinha de bar, por exemplo.

 

(Segue...)

ANTIGAS CONVICÇÕES, NOVAS CERTEZAS - III

 

Continuação...

 

 

Desculpe, Viviane, é assim que eu vejo o futuro. É assim que tem acontecido em 100 por cento dos casos. Com Bin, com Tabac, com Leumas, com muitos outros. Com Freja, que agora, gravidinha, tem a grande chance de parar de brincar com seu fumômetro e encarar a vida pra valer — se não a dela, a do filho, que merece isso. Chega de brincar, Freja. Tire isso da sua vida e, se for o caso, intime o marido a fazê-lo. Ele pode continuar fumando da porta para fora. Dentro de casa vocês vão precisar de ar puro.

 

Hoje decidi ser duro e verdadeiro, como devem ser os amigos de verdade. O recado está dado, Viviane. Se você esqueceu o poder do cigarro, estou aqui para lembrá-la citando seu próprio texto:

 

“No último encontro, (...) o álcool enfraqueceu minha convicção. Dei três longas e deliciosas tragadas no cigarro de minha cunhada. Hum... que delícia!

 

Não preciso dizer mais nada, não é? O que ficou foi a memória das longas e deliciosas tragadas. E você nem percebe o quanto isso a fascina. Duvido até que tenham sido três tragadas. Duvido de qualquer coisa que um fumante me diga e que tenha a ver com um cigarro na mão. Porque quem está contando o fato não é Viviane ex-fumante, é a Viviane fumante que apareceu por acaso na mesa do barzinho e fumou... quanto, meio cigarro? Três quartos? E depois devolveu o final para não assumir a culpa de apagar a ponta no cinzeiro. Foi isso?

 

Preciso dizer isso, Viviane. Seu demônio está vivo e atento.

 

Preciso dizer isso, Freja. Recaídas repetidas são o veneno da auto-determinação, deixam a gente sem força de vontade.

 

Agora é com vocês. Vou dormir porque Cristal chega amanhã cedo e estou louco para saber como ela está. Espero que melhor do que ontem.

 

 

 




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